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Joaquim Aguiar 06 de Agosto de 2020 às 09:20

Veteranos e iludidos

Portugal vai continuar a fazer rotundas (que os veteranos já conhecem, mas os iludidos imaginam que são estradas) ou vai assumir o seu destino de construir a sua escala no exterior?

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A FRASE...

 

"No fim de qualquer crise de grande dimensão, nunca se regressa ao ponto de partida. As grandes crises conduzem sempre à renovação e à obtenção de novos equilíbrios." 

 

José da Silva Peneda, Público, 3 de Agosto de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Foram muitos os planos que se propuseram modernizar Portugal, só faltou mesmo mudar Portugal. Os planos fracassaram porque as preferências dos portugueses pelas políticas distributivas e pelas promessas de protecção do Estado não mudaram. Os regimes políticos em Portugal - monárquicos ou republicanos, autoritários ou liberais, clericais ou seculares, corporativistas ou democráticos -, são apenas modalidades diferentes de organizar redes de clientelas, estabelecendo a circularidade das rotundas, em que os que mandam e os que obedecem precisam uns dos outros para poderem existir. Os regimes políticos em Portugal mudam quando os que mandam se cansam e quando os que obedecem acreditam que beneficiam com a substituição dos que mandam.

 

O IV Plano de Fomento queria conciliar o desenvolvimento da economia e da sociedade com a continuidade das guerras coloniais - teve a mudança de regime em 1974. O Plano Melo Antunes queria evitar políticas económicas radicalizadas, com crescimento sem colónias - teve o 11 de Março de 1975 e as nacionalizações. Em 1977, no Forte de S. Julião da Barra, as reuniões de economistas portugueses que prepararam o pedido da ajuda financeira ao FMI, formalizada em 1978 e implicando a formação do governo de coligação (acordo parlamentar de incidência governamental) do PS com o CDS para que houvesse uma maioria parlamentar que ratificasse esse programa. Pouco tempo depois, em 1983, novo programa negociado com o FMI e nova coligação, agora PS/PSD, com a coordenação de Ernâni Lopes. Não foram planos de modernização, foram pretextos para coligações partidárias, inseridas no modelo da dinâmica das rotundas.

 

Foi diferente o terceiro programa com o FMI, porque passou a ter uma componente europeia. Foi a oportunidade de exteriorizar a política portuguesa, mas fracassou porque a necessidade de esconder as responsabilidades do passado e a oportunidade de afirmação do radicalismo nacionalista de esquerda reconduziu à rotunda interna, agora na modalidade paradoxal das reversões como conquistas irreversíveis. Até que um acidente da natureza, na modalidade de um vírus, recoloca tudo no ponto de origem: Portugal vai continuar a fazer rotundas (que os veteranos já conhecem, mas os iludidos imaginam que são estradas) ou vai assumir o seu destino de construir a sua escala no exterior?

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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