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BES: Pharol afirma ser "principal vítima" no processo em que sofreu coima de um milhão de euros

Segundo a CMVM, a antiga PT, primeiro sob a gestão de Zeinal Bava e depois com Henrique Granadeiro, fez aplicações de tesouraria (num processo que começou com a liquidez obtida com a venda da Vivo, em 2010) na ESI, não cumprindo com as normas que determinam a diversificação das aplicações, em instituições financeiras com notação de 'rating'.
Lusa 19 de Novembro de 2020 às 00:00

Por vezes, parece que queremos acreditar na mentira, mesmo sabendo que é mentira.

É muito difícil lidar com a verdade, mas é também difícil negar a própria verdade, acho é que as pessoas vivem naquilo que os filósofos gregos sempre denunciaram: a opinião, que é o grande inimigo da filosofia (a "doxa" contra a "episteme"), e todos mudamos de opinião e de gostos. Nunca gostei de bacalhau cozido, mas vivi na Alemanha e dei por mim a ter saudades gigantescas de bacalhau. Mudamos de opinião com sentimento, a chorar e de formas absolutamente contraditórias… Por vezes não conseguimos perceber a nossa crosta, não conseguimos entender a nossa própria epiderme. Isso deveria significar, como dizia Descartes no "Discurso do Método / Meditações Sobre a Filosofia Primeira", que pelo menos uma vez na vida temos de duvidar de todas as coisas. Mas há uma enorme dificuldade em duvidar daquilo que não nos parece duvidoso. E essa forma de os antigos céticos atacarem as verdades como estão constituídas é uma tarefa extraordinária, é o princípio da liberdade humana.

 

Diz que a História se repete quando o povo baixa a guarda. Teme que a História se repita?

Sim. Goethe dizia, do povo alemão, que era extraordinário, mas estava pronto a seguir alguém que lhe aparecesse como líder. Eu não digo que é isso que está a acontecer, a Alemanha tem tido líderes extraordinários, a própria Merkel, que era um pouco o rosto da intervenção no tempo da troika, é uma humanista e é uma europeísta. Mas devemos notar que, antes da ascensão de Hitler ao poder e contribuindo para tal, os partidos com assento parlamentar esqueceram-se de que eram representantes do povo, entraram em jogos florais e geraram o seu próprio descrédito. E esse descrédito pode levar à ideia generalizada do "se lá estivéssemos, também faríamos o mesmo", isto é, "empocharmo-nos" de dinheiro. Há uma ideia de impunidade. De resto, os gregos, quando nomeavam pessoas para cargos públicos, obrigavam-nas a provar que não roubavam. O ónus da prova era dado ao político, que tinha de provar que não enriquecera à custa dos dinheiros públicos.

Os clássicos deveriam ser revistados, também pelos políticos?

Teriam muito para aprender e para aplicar. O que acontece nos movimentos, sejam nacionalistas, sejam populistas, tem que ver em parte com a manipulação do descontentamento das pessoas. Esse descontentamento pode estar isolado, mas também pode estar generalizado e ser domiciliado, não apenas no lúmpen da sociedade, mas nas classes médias e em pessoas que todos os dias vemos nas ruas, nos nossos amigos. O descontentamento assume formas irracionais. Os populismos canalizam frustrações antigas (complexos de classe, de comparação e de inveja ou de ciúme). Temos o caso do Chega, que preconiza a "quarta República", a destruição da Constituição como a conhecemos e a extinção do Ministério da Educação. É uma "provocação" que eles levam a sério, é anticonstitucional e deveriam responder na Justiça.

 

Porquê um crescendo do descontentamento no passado recente?

Não tenho os instrumentos sociológicos e históricos para analisar a questão, mas Nietzsche e depois Max Scheler diagnosticam o ressentimento no Ocidente como motor histórico. Não se trata de uma luta de classes (e a luta de classes pode não significar "querer subir na vida", pode querer dizer "lutar com ressentimento contra", elegendo aquele que achamos que é o agente da nossa subalternização). Pode ser uma questão meramente psicológica, localizada no indivíduo, mas abre as portas a uma associação. Ou seja, é possível extravasar o horizonte do ressentimento pessoal e eleger aquilo que pode ser apenas simbólico dos nossos objetos de ódio – podemos identificar os negros africanos ou aqueles que têm orientações diferentes como o objeto do nosso ressentimento. Vemos por isso os nossos amigos a acharem que, de alguma forma, os partidos têm na sua base "sempre os mesmos", "alguns até trocam do PS para o PSD e vice-versa". Ou seja, há essa frustração relativamente a uma promessa tácita que os partidos deveriam salvaguardar… E mais uma vez digo: nós somos ricos, eu acho que nós somos ricos.

 

Somos ricos relativamente à geração dos nossos pais, por exemplo.

Os meus pais eram pequeno-burgueses, o meu pai era empregado bancário e a minha mãe era operadora de sistemas nos CTT. Tinham salários, mas eram pessoas que trabalhavam para pagar a renda da casa, não viajavam, não tinham esse dinheiro. Comprar um livro era uma coisa sagrada, havia poucos livros, mas havia livros bons. Lembro-me de o meu pai dizer que a nossa herança era um curso superior. Somos ricos comparativamente à vida de há 40 anos e, como temos o cheiro dessa possibilidade, queremos mais. O ser humano é constituído por ganância, queremos ter mais, queremos ter tudo, e esse tipo de ambição gananciosa leva a comportamentos aditivos – pode significar querer ler mais livros e viajar mais, querer ir a todo o lado. E quando nos comparamos com o outro percebemos que se calhar há pessoas que não merecem e que têm mais do que nós, "nós que merecemos tanto, nós que somos o máximo". A época em que vivemos permite estudar, passear, visitar museus, o que for. E permite a ideia de uma melhoria das condições que podemos não ter ou que não vislumbramos. Abriu-se a porta do ressentimento, mesmo que seja controlado e que não esteja identificado como tal, e essa porta é uma porta de repetição na História, é aquilo que obriga às guerras civis ou às guerras entre Estados ou à identificação dos PIGS, de povos ricos e povos pobres, à identificação do "outro".

 

Qual a reação da sua família quando disse que iria estudar filosofia?

O meu pai adorou. Ele achava que os economistas eram merceeiros, sem qualquer espécie de menosprezo, era altamente politizado e havia uma clara consciência humanista em casa. Eu seria médico ou historiador… A escolha de Filosofia aconteceu por acaso. O meu caminho inicial foi em engenharia, depois achei que não seria um engenheiro competente, tive uma crise de vocação. Percebi que tinha de mudar de vida, e o curso que estava disponível sem me fazer perder anos era Filosofia. Fui para Filosofia por mero acaso. Mas não foi por mero acaso que fiquei em Filosofia.

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O mercado de trabalho está preparado para absorver mais licenciados em Filosofia?

A formação filosófica envolve uma análise sistemática de textos, o diagnóstico de problemas e a construção de programas de resolução. Estas são competências que, formalmente, dão para tudo. O pensamento puro tem muito para dar, deu aos matemáticos e aos físicos, não vejo porque não possa dar aos gestores e aos economistas. Os gregos eram holísticos e estavam muito próximos do pensamento oriental, muito mais do que pensamos. A especialização, de certa forma, denegriu o "pacote vendável" da filosofia. A filosofia corresponde a uma forma de pensamento. Por isso, a descoberta dessa possibilidade metódica de diagnóstico de uma situação global, e depois, como dizemos em português e agora, de descida a um "zooming in", é perfeitamente possível, e é aquilo que é feito desde sempre, desde os "Diálogos de Platão".

 

A educação filosófica deveria começar no ensino básico?

Há várias teorias, e algumas escolas já têm educação filosófica para crianças. Aristóteles falava num "ser-se obrigado a procurar". Tudo aquilo que dizemos, aparentemente de forma gratuita, pressupõe uma interrogação, mas nem sempre sabemos fazer interrogações. Uma interrogação pressupõe uma indeterminação, uma indefinição, uma ausência, e essa forma de pensar na ausência (de pensar no que está ao longe, mas também no que está próximo e invisível) corresponde a formas de metodologia da problematicidade filosófica.

 

Dizia-me que o pensamento filosófico é um luxo.

Começa por ser um luxo. Aristóteles diz que é no Egito, quando os sacerdotes têm a vida resolvida no seu quotidiano, e quando não há nada para fazer, que se desenvolve uma espécie de pensamento. Portanto, em interpretações modernas, o tédio leva-nos a pensar nas coisas. Mesmo a realidade de há 40 ou 30 anos era muito diferente da realidade de hoje. Embora nos comportemos como "enfants gâtés", somos mimados relativamente àquilo que havia. Por isso falava numa espécie de luxo. A metafísica não é uma resposta à física, corresponde a uma identificação dos problemas da existência quando, de alguma forma, as coisas estão resolvidas. Se estivermos desempregados, se estivermos com fome...

 

… não nos podemos dar a esse luxo.

Pois. A filosofia ensina a lidar com a desocupação, com o aborrecimento, com o tédio. Os alemães têm o substantivo "Langeweile", que quer dizer: o alongamento da duração. O aborrecimento significa o "horror do vazio", e lidar com isso é ótimo. Ocupar as crianças e as pessoas com atividades de tempos livres não lhes dá esta possibilidade da própria existência. Lidar com o tédio da desocupação e dos domingos à tarde da existência corresponde a uma possibilidade existencial.

 

Mas o ócio continua a ser mal-afamado.

O negócio nega o ócio, e isso é uma possibilidade perdida. É também por essa razão que as pessoas têm de descansar, porque estão continuamente a ser utilizadas pela máquina.

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